Paulo Morais – Crítico de Arte; professor de “Problemas da Arte Contemporânea” na Escola Superior de Teatro e Cinema

 

«Sento-me com a minha música, com o meu caderno sempre de páginas soltas sem uma palavra, fico a olhar para esta paisagem e deixo-me levar, não sei bem para onde, mas sei que aqui sinto que nada me vai acontecer, sinto que o mundo pára. Só me apetece dançar até os pés doerem, cantar até onde a minha voz deixar, rir até chorar. Enfim, são tantos os sentimentos que fico sem conseguir escrever …»

Domingas Sottomayor

 

NOTAS PESSOAIS

por Paulo Morais-Alexandre

Colagens com História

Nada na formação de Filipa Sottomayor a vocacionava para as artes plásticas, apenas uma necessidade imperiosa de comunicar, de transmitir, até de forma violenta o que lhe ia na alma. É aliás extremamente curioso que, à pergunta relativa à forma como descrevia a sua arte, tenha respondido que esta era como que um grito saído das suas entranhas que, de alguma forma, exprimia os seus sentimentos, até mesmo os mais bizarros. Há pois uma necessidade seminal de legar a todos as suas vivências e emoções. 

Perante várias opções para veicular o que sente já foi feita a opção firme de essa manifestação se processar pela via plástica. Para corresponder a tal desiderato escolheu fazer a sua própria formação que passou por se exercitar no desenho e nas diversas técnicas da pintura em particular e da expressão artística em geral, começando fazer as primeiras experiências e a produzir as primeiras obras. Este percurso prático foi complementado pela visita a inúmeras exposições, museus e galerias de arte contemporânea nacionais e, sobretudo, internacionais. 

A Arte de Filipa Sottomayor é do nosso tempo e escolheu como meio a utilização de técnicas mistas, onde a colagem é um elemento fulcral e onde entram variados materiais como a própria tela, o papel, a fotografia, elementos têxteis, etc.. Destes citem-se como fulcrais os recortes da imprensa que captam a espuma dos dias e que são sabiamente escolhidos para fazer parte de uma composição que os amplifica, tornando-os emblemáticos ou que, pelo contrário, os retira do contexto original, dando-lhe um novo enquadramento, um novo significado e uma nova razão. 

Há também uma componente pictórica que não deve, nem pode, ser escamoteada e onde a superfície é um elemento fundamental, sendo marcada pelo pincel que aí deixa texturas que enquadram a composição e a enriquecem. Paralelamente as figuras que cria e que nos remetem para o ambiente dos sonhos não deixam de ser cativantes, algumas sensuais, enquanto outras são muito perturbantes. 

Das obras expostas gostava de destacar duas em particular que considero exemplares da obra desta artista: As composições que designou por Adão e Eva e por Vénus. Será até interessante até fazer o seu confronto e a forma como foram resolvidas. Qualquer destas obras trata um tema que é recorrente na Pintura, a primeira desde os primeiros tempos do Cristianismo, sendo a segunda até mais antiga. Há efectivamente muitos registos da pintura do surgimento de Vénus na Grécia Antiga, nomeadamente sabe-se que terá existido uma mítica representação deste episódio da autoria do grande pintor Apelles. A referência mais próxima para estas obras surge na pintura italiana do Quattrocento, tendo obrigatoriamente que ser citada a representação de Adão e Eva por Massaccio na capela Brancacci em Florença e o Nascimento de Vénus pintado por Sandro Botticelli, embora a referência a uma pintura simbolista do século XIX não possa ser escamoteada e refira-se por exemplo a obra do grande mestre Bouguereau que foi também chamada à colação. 

A autora não deixa de fazer um piscar de olhos subtil, obviamente, a estas célebres pinturas e até de as citar, mas o tratamento é heterodoxo. Há algo de muito pouco habitual na arte contemporânea: cada obra remete para uma história que faz parte do nosso património cultural, que já faz parte integrante dos nossos genes, mas, neste caso, ambas as histórias são reescritas e de uma forma completamente inédita. É pois extremamente estimulante fazer uma análise iconográfica das obras, ou seja, perceber o que está representado. Adão e Eva #mce_temp_url#  são apanhados no momento em que o tempo parou. Ainda não estão expulsos do Paraíso, mas já foi cometido o pecado original, o momento chave em que pela primeira vez o ser humano foi confrontado com o preço da liberdade. A terrível ordem divina já foi dada e o anjo prepara-se para a executar. Há nesta Eva, bastante kinky por sinal, as marcas da clarividência de um futuro onde pecado e inocência se confrontarão e complementarão enquanto Adão parece conformar-se com a fatalidade do destino que lhe está cometido. 

Quanto à Vénus, http://rasgo.wordpress.com/2007/09/02/199/ a Afrodite dos gregos, esta é representada de forma estranhamente sedutora. Relembre-se a sua história: Vénus nasceu da revolta de Cronos contra seu pai Urano. Este foi castrado por seu filho e viu lançados os despojos do seu sexo ao mar. Do contacto daquele com a espuma das ondas surgiu a mais bela das deusas do Olimpo, a mais formosa de todas. Nesta obra a imponderabilidade da deusa é claramente transmitida e um outro aspecto da sua história é também narrado: consta do mito que a sua beleza a todos cegava e que provocava a discórdia entre os deuses do Olimpo que tanto a desejavam, o que motivou o desagrado do primeiro dos deuses, Zeus, que a castigou. Mas a forma como a composição é resolvida não remete para a Grécia antiga, nem para o Renascimento e muito menos para a arte do século XIX, da mesma forma que não se possa considerar que seja uma representação intemporal. Trata-se de uma estética que é absolutamente moderna e pertence já ao século XXI. Pertence sem dúvida ao Futuro. 

Gosto do futuro!



5 Responses to “Paulo Morais – Crítico de Arte; professor de “Problemas da Arte Contemporânea” na Escola Superior de Teatro e Cinema”

  1. Oi Paulo, tudo bom?

    Meu nome é Giovanna e eu estou me formando no curso de jornalismo esse semestre. O meu Trabalho de Conclusão de curso é um portal na internet sobre diversidade cultural na cidade de São Paulo. Estamos preparando um ensaio fotográfico sobre grafite. Gostaria muito de poder conversar com você e saber a sua opinião sobre essa forma de arte. O que você acha?

    Muito obrigada,
    Giovanna.

  2. Caro Paulo Morais… uma frase ultra típica de começo de uma carta. Embora esta (escrevinhação) o não seja. À Filipa Sottomayor já venho cumprimentando – faz anos – pelo seu trabanho no domínio (já devidamente seu) das artes-visuais 2D.
    Agora os cumprimentos vão para o crítico da obra recem exposta publicamente e que recebeu um merecido (surpreendente?)eco.
    E, eco de aqui ligado a eco de ali e acolá, temos o eco do (no)seu crítico. Crítico que se revela (ainda por cima & muito bem) também exegeta. E, de modo animado, natural, um exegeta da arte 2D que Filipa nos vem propondo.
    E… que mais poderei eu dizer ou fazer para mostrar o meu apreço(também) por Paulo Morais, o (também) jóvem entusiasta que tão bem demonstra a sua interpretação?
    Bem, meu Caro, também gosto do futuro… talvez esta a explicação para certa apologética de (algumas) Arte(S).
    Eduardo Sérgio

  3. olá Paulo, sou restaurador de obras de arte, pintor e escultor, tenho pintado alguns quadros com temas “religiosos” através de um estilo primitivo com arte de rua, gostaria que pudesse vê-los e comentar sobre, teria como? mandaria as fotos por e-mail, desd já muito obrigado pela atenção.

  4. Ola

    gostaria de lhe fazer uma pergunta. Qual a diferença entre pintor de quadros, de arte e artista plastico?

    Pra ser artista plastico precisa ter diploma? Não seria o caso de musicos e cantores que não têm diplomas, mas que são talentosos?

    Muito obrigado pela atenção
    Fabio

  5. Olá Paulo:
    Represento um artista plastico de Florianopolis. Como mostrar seu trabalho para um critico de arte avaliar?
    As obras estão no bog: http://www.artebaiao.com
    Abraços,
    Tânia

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